
Marcelo Simões, sócio e cofundador da Comtax
A Reforma Tributária brasileira, que entra em vigor em janeiro de 2026, promete transformar radicalmente a forma como empresas calculam e recolhem seus tributos e, segundo estudo da Delloite, apenas 37 % das empresas brasileiras implementaram um sistema ERP customizado para atender a demandas fiscais. Nesse contexto, o motor de cálculo fiscal surge para garantir eficiência, conformidade e planejamento estratégico.
O motor de cálculo é uma solução tecnológica que automatiza a apuração de tributos em tempo real, substituindo processos manuais altamente suscetíveis a erros. Trata-se de uma “biblioteca jurídica digital”, constantemente atualizada, que traduz a legislação em regras parametrizadas, capazes de cobrir milhares de combinações de alíquotas, benefícios e particularidades fiscais em todo o país. Para as empresas, isso significa eliminar a dependência de ajustes manuais em ERPs e assegurar que suas operações estejam sempre em conformidade com a lei.
Segundo Marcelo Simões, sócio e cofundador da Comtax, empresa especialista em automação fiscal, a relevância dessa tecnologia ganha uma dimensão inédita diante da Reforma. “Hoje já existe uma dificuldade imensa em acompanhar a dinâmica tributária no Brasil, que muda praticamente todos os dias. A partir de 2026, além dos tributos atuais, teremos novos impostos que precisam ser calculados em paralelo, com métodos diferentes. A maioria dos ERPs não permite conviver com essas duas lógicas ao mesmo tempo. O motor de cálculo resolve essa equação, entregando em uma única chamada os tributos antigos e os novos, já dentro das regras da Reforma”, explica o executivo.
Da alíquota teste às exceções setoriais
O ano de 2026 será marcado pela chamada “alíquota teste” de 1%, em que os contribuintes não precisarão recolher os novos tributos, mas terão de reportá-los. Embora muitos vejam esse período como um “ano de adaptação”, especialistas alertam que a complexidade já se manifesta desde o início. Setores como Zona Franca de Manaus, agropecuária e até mesmo a cesta básica terão regras diferenciadas, que exigem parametrizações específicas desde o primeiro dia de vigência.
Para Simões, o risco de não se antecipar é alto:“Quem apostar que 2026 será um ano simples pode se surpreender. Já identificamos diversas exceções que exigem atenção imediata. Empresas que não tiverem seus motores preparados correm o risco de apresentar informações inconsistentes e comprometer tanto a conformidade quanto o planejamento financeiro.”
Eficiência, governança e compliance em escala
Além de reduzir o risco de autuações fiscais, o motor de cálculo representa ganhos expressivos de eficiência operacional. Em setores como varejo e distribuição, em que milhares de itens circulam em diferentes estados, a atualização constante de pautas fiscais seria praticamente inviável apenas com mão de obra humana. Automatizar esse processo significa liberar equipes tributárias de atividades repetitivas, fortalecer a governança e possibilitar um planejamento tributário mais estratégico.
Com a digitalização do fisco e a obrigatoriedade de reportes eletrônicos em tempo real, a tecnologia se torna uma aliada não apenas de conformidade, mas também de competitividade. “Estamos falando de uma mudança estrutural, não apenas tecnológica. O motor de cálculo deixa de ser um acessório e passa a ser um aliado estratégico na adaptação à Reforma Tributária”, reforça Simões.
O movimento de preparação para a Reforma já começou. No dia primeiro de julho, a Receita Federal iniciou os testes dos novos campos de CBS e IBS na nota fiscal eletrônica, reunindo cerca de 500 empresas para participar. dentre elas algumas grandes companhias, como Vale, Petrobras, SAP, IBM, Oracle e Nestlé. Esses números deixam claro que as lideranças mais estruturadas já estão se antecipando ao desafio.
Ferramentas como o motor de cálculo podem ser o diferencial entre cumprir as novas regras de forma segura ou enfrentar riscos de inconsistência fiscal logo no primeiro ano da Reforma.



